O enxoval empoeirado.
Uma caixa de papelão média com potinhos para cozinha. Três jogos de tapete para banheiro. Um jogo de tapete que dá pra cozinha/quarto. Dois lençóis para cama de casal. Toalha. Desde os meus 18 anos, minha mãe (essa linda da foto) guarda coisas para minha futura vida de casada, mesmo que na época não houvesse pretensões de um casamento próximo.
Preciso dizer que, durante esses dez anos (hoje tenho 28), tive pedregulhos na minha vida sentimental. Em certo momento eu estava cansada e sem alegria alguma de imaginar um relacionamento bom, sadio e que glorificasse a Deus.
Em harmonia com os desgastes de relacionamentos abusivos e infrutíferos que minha idolatria romântica me causou, uma depressão severa desabrochou. E foi nesse cenário que eu conheci as Doutrinas da Graça.
Apesar de maravilhada com a redescoberta do Evangelho (dessa vez, sem escamas), aquele enxoval ainda me deixava triste.
Eu estava frustrada e não queria que minha mãe ficasse também. Ela voltava a comprar um potinho e eu nem queria ver. Depois, me culpava por não ter dado importância. Na verdade, eu me importava tanto com minha mãe que preferiria que ela não juntasse a esperança que eu considerava ilusória. Tentava ser natural quanto a minha falta de interesse para ver se ela desanimava da ideia. Mas ela não se levou por meu desânimo.
Eu renasci pra fé, através da Sã Doutrina, mas havia feridas que nem casquinhas tinham formado. Não queria que minha mãe estivesse fazendo um trabalho vão.
Nesse conflito entre ver minha mãe acomodando no maleiro de seu guarda-roupas aqueles poucos itens e eu sem alegria alguma de ver isso acontecer, procurei um amigo, que é cristão e temente a Deus, para desabafar. Disse: "Alex, eu vejo minha mãe fazendo isso e só sei ficar triste. E me culpo, porque sei que ela não está fazendo para me deixar assim, mas não sei ver de outra forma." Continua nos comentários.
Nas palavras de Alex, que não sei reescrever com precisão, o ensinamento precioso: "Sinta-se agraciada por ter uma mãe que se preocupa com você e se alegra em fazer algo por seu futuro, mesmo que simples. Há muitas mães que não se importam com seus filhos. Veja o cuidado de Deus nessa demonstração de carinho e tire esse peso que a ideia de um futuro casamento te traz. Você pode nunca se casar e mesmo assim você poderá usar as coisinhas que ela guarda, inclusive usar em uma casa que você montar para viver com ela."
Ahhhh, sinto que esse foi um dos primeiros ensinamentos sobre contentamento que o Senhor me deu desde que "reformei". Era isso! Não era a certeza de um futuro casamento a bênção para aquele momento. A bênção daquele momento era minha mãe, seu carinho e amor demonstrados através de panos de prato pintados à mão, tapetes com cara de "casa de vó" e potinhos de formas e tamanhos diferentes. Não era e nem é o enxoval do sonho de toda noiva. É simples. Mas era o enxoval que minha mãe montou pra mim, com o amor e escolhas que somente ela têm. Era o melhor enxoval que eu poderia ter na vida e que não venderia nem trocaria por nada.
Como as coisas mudaram depois que vi isso.
Há bênção que nos cercam hoje, mesmo que feridas também façam parte do cenário.
Por que não vemos as belezas das bênçãos cotidianas? Como desejaria ter aprendido antes! Quanto tempo perdi em não ter me alegrado com cada potinho comprado! Sem me afogar em lamentos, sou muito feliz com o que aprendi. E vejo que os aprendizados mais valiosos vêm assim... com erros. Ele transforma nosso mal em bem!
O Senhor teve misericórdia de mim e uma dessas demonstrações de misericórdia é a mamãe graciosa que tenho.
Ainda não me casei. E quem pode garantir que irei? Se o Senhor desejar nos dar vida até lá e nos conservar em mútuo propósito eu direi "sim". Mas eu estou feliz. Mesmo que o casamento não se concretize, afinal, aprendi algo além.
Porque não é o casamento o auge das bênçãos que Deus nos pode dar. Não é um par romântico que nos dá contentamento. Não será fora de Cristo que encontraremos a verdadeira paz.
Os cuidados de Deus estão em pequenas coisas, também. Não espere pelo emprego que te deixará rico, nem pelo corpo esculpido na academia para se alegrar. Não é aquela viagem pro exterior que vai te trazer calma. Não é um namoro que te livrará da solidão.
Cristo é o que nos cura, nos redime e nos salva. E em Cristo as bênçãos respingam até naquele enxoval pequeno, simples e empoeirado. Alegre-se, porque apesar das dores, o Senhor nos dá muito mais que merecemos!
Olhe ao seu redor e treine seus olhos a observar essas bênçãos. Muitas coisas doem e talvez continuarão doendo... talvez a dor aumente. Mas sim, continuará havendo graça!
"Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque Ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei." (Hebreus 13:5)
Observe esse versículo: Deus não disse (no passado) que nunca nos abandonará. Ele TEM DITO, HOJE E AMANHÃ, que NUNCA nos abandonará. E nisso consiste uma vida sem avareza e com alegria com as coisas temos.
Digo amém ante essa palavra, com o coração quentinho.
Com amor,
Fernanda Araújo.
(A reprodução do texto é autorizada, desde que sejam citados autora e blog).
Observação: Esse texto faz parte da série "Diário de Uma Noiva Comum" e por ser um relato de vida pessoal, constará detalhes sobre a vida pessoal da autora. Não é um texto teológico, embora aponte para Cristo e Escrituras.



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